EDUCAÇÃO C0M QUALIDADE: SENTIDO E SIGNIFIDADE

 

 

                                                     Luiz Etevaldo da Silva *

luizetevaldo@yahoo.com.br

 

 

Resumo

 

Este artigo tece considerações acerca da diferença entre pensar-se uma educação de qualidade pelo ponto de vista das políticas neoliberais e pela concepção dos movimentos sociais populares. Ele faz uma análise mais centrada na segunda perspectiva, na qual seja, a educação com qualidade política, com vista a criar condições de um bem-viver das camadas sociais subalternas, para uma sustentabilidade social e ecológica. Depois, aponta as concepções metodológicas da práxis e da dialética como importantes para uma educação capaz de compreensão e intervenção na realidade para transformá-la.

Palavras-chave: educação, política, práxis, dialética, transformação

 

Abstract

 

Education quality: meaning and significance

The present paper establishes observations about the difference between thinking for a quality education through the point of view of neoliberal policies and the design of the popular social movements. He makes an analysis more focused on the second perspective, namely, education quality policy in order to create conditions for a good life of the lower strata of society to a social and ecological sustainability. Then point the methodological conceptions of praxis and the dialectic as important to an education capable of understanding and intervention in reality to transform it.
Keywords: education, policy, practice, dialectical transformation

 

 

 

            Introdução

 

            Um dos temas que mais recebe referência nas últimas décadas, no Brasil, é a qualidade da educação. Mas, qual qualidade é a pergunta pertinente? Pois, dependendo quem responde o sentido pode ser diferente. Para um arauto das políticas neoliberais aplicada à educação é uma resposta, já para os movimentos sociais populares é, certamente, outra. Visto que as lógicas social e política destes dois segmentos são divergentes ideologicamente.

            Portanto, neste artigo, na primeira parte, teceremos considerações sobre o sentido e significado de uma educação com qualidade, no ponto de vista dos movimentos sociais populares, aqueles que buscam modelos sociais, culturais, políticos e econômicos alternativos, no sentido de uma educação do homem contemporâneo para uma sustentabilidade social e ecológica no século XXI. Na segunda parte, faremos uma reflexão sobre a importância da práxis e da dialética como metodologias para uma educação com qualidade política, capaz de possibilitar uma compreensão crítico-reflexiva do contexto social, com vista a uma perspectiva especulativa da realidade e, assim, criar condições de intervenção para transformá-la.

O artigo é resultado de leituras em busca de um referencial teórico para a dissertação, em andamento, no curso de Mestrado em Educação nas Ciências, na Universidade Regional do Estado do RS (UNIJUÍ).

 

            Por uma educação de qualidade

            Constatemos há tempo que o modelo socioeconômico capitalista, com seu padrão de consumo e desperdício é insustentável, no ponto de vista ecológico. Mais, também, é insustentável no ponto de vista social, tendo em vista a exclusão de grande contingente de indivíduos das condições mínimas de vida decente. Sendo assim, nos debates pelo mundo afora, sobretudo no Fórum Social Mundial 2010, em Porto Alegre/RS, Brasil, este tema foi, como nos eventos anteriores, amplamente debatido. E várias exposições de diversos lugares do Planeta deixaram claro o processo de conscientização dos movimentos sociais populares, quanto a esta questão.

            Para os governos e intelectuais neoliberais a educação de qualidade pode significar a apreensão de conteúdos científicos para utilizar no sistema produtivo, com vista à produção e reprodução do capital. Como também para dar um tom de “social”, alardeiam a idéia de empregabilidade, para se aproximar do imaginário popular. Ainda sob a égide do capital e dos lucros, esta concepção desconsidera, em tese, as questões éticas relacionadas às ações humanas das elites na busca de enriquecimento material e acumulação de renda e riqueza.            

            Em contrapartida, os movimentos sociais populares, em vários recantos do mundo, propalam uma educação diferente, na qual os conteúdos científicos são importantes, mas não são um fim em si mesmo. Então, é imprescindível uma dimensão política explícita neles, obviamente, perguntando qual qualidade? Qualidade para quê? O que esta qualidade implica numa vida decente e na sustentabilidade da vida no Planeta? Portanto, enfim, está em jogo a questão de discussão do modelo social que propugnamos, enquanto sujeitos de direito a uma vida decente.

            Afinal, foi feita uma exposição de vários pensadores de diferentes continentes, sobre a questão do bem-viver. Quando li o programa me perguntei qual significado e sentido deste conceito. Para minha surpresa os expositores também confessaram que falar de bem-viver foi desafiante para eles no momento que foi proposto elaborar o tema para debate. Então, por que é difícil falar de bem-viver?

            Na verdade, não é difícil falar de bem-viver. Mas qual o sentido disto? Pois, na lógica capitalista, bem-viver pode ser ter boa renda, muitos bens materiais, dinheiro para viajar pelo mundo, conhecendo lugares lindos, curtir férias nos belos lugares  (Caribe, Miami, Rio de Janeiro, Bahia, etc. ), dois ou três carros do ano, dinheiro para pagar as melhores escolas para os filhos, ter acesso a tecnologias sofisticadas em casa, no tratamento à saúde, lazer, comer do “bom e do melhor”, enfim tanta coisa boa o mundo capitalista oferece para quem tem poder aquisitivo para um bem viver!

            No entanto, bem-viver para a maioria da população do mundo significa algo um tanto diferente. Para eles que não tem acesso às benesses do mundo do consumo, bem-viver quer dizer ter um ambiente de trabalho decente: saúde, segurança, lazer, condição ambiental, transporte humanizados, por exemplo. Sendo assim, que os direitos humanos estejam no mundo do trabalho para proporcionar uma vida agradável. Trata-se, pois, de conviver num modelo social centrado na vida, democrático, novo padrão de consumo, novos conceitos de relações entre os humanos, destes com a natureza, com o conhecimento, com as coisas, com a transcendência.

            Nas novas relações entre os humanos, entendem-se subjetividades voltadas à sociabilidades solidárias, cuja vida com qualidade seja possível a todos sem necessitar uns estarem explorando os outros de forma desumana. Quanto às novas relações dos homens com a natureza, referimo-nos à exploração racional dos recursos naturais, com vista à sustentabilidade ecológica, e não a lógica da comercialização por grandes grupos econômicos com objetivo principal de auferir fabulosos lucros e acumular riquezas.  E, em conseqüência disso, os grandes desiquilíbrios ambientais, aquecimento global, destruição da biodiversidade, poluição das águas. Enfim, ameaça à vida no Planeta Terra.

            Como tal, as relações dos homens com as coisas, também, fazem parte deste modelo social “esquizofrênico”. No qual as coisas, muitas vezes, são mais importantes que a vida. Ademais, até os seres humanos, às vezes, são coisificados (modelos tratadas como coisas pelos gerentes de grandes agências para extrair delas lucros gigantescos usando seu corpo como objetos de trocas). Pensamos, então, numa nova relação com as coisas, na qual elas estejam a favor de um bem-viver, mas de forma humanizada, sendo o mais importante a vida.

            Por fim, o homem contemporâneo, emergido no mundo da satisfação imediata, dos resultados, das metas, tem imensas dificuldades em perceber a dimensão da transcendência, no sentido sociológico, ou seja, compreender que antes de nós aqui na Terra, outros indivíduos viveram, e as coisas boas ou ruins que temos hoje são resultado da história deles aqui. Então, hoje nós estamos aqui, construindo a história e amanhã outros estarão no nosso lugar. Portanto, cada geração tem responsabilidades além de sua presença aqui e agora. Neste sentido, está a dimensão da sustentabilidade, que nos remete a pensar no mundo daqui a 100, 200, 500, anos ou mais, quando não estaremos aqui, mas a história humana continuará. Caso, a ganância do homem capitalista não destruir tudo até lá.

            Verifica-se, pois, que o bem-viver nos coloca o desafio de repensar nossas relações hoje, centradas no alto padrão de consumo, da predominância da lógica do capital e do lucro sobre a da vida. Então, tudo isto e muito mais nos exige fazer constantes exercícios de reflexão sobre como o modo de vida atual implica no conjunto da sustentabilidade social e ambiental.

            Por uma educação de qualidade pressupõe pensar a formação humana além dos imperativos sistêmicos do modelo social vigente, cuja lógica do capital e do lucro torna os indivíduos insensíveis, indiferentes e egoístas. Neste caso, nos cabe sempre fazer a pergunta: que modelo de relações pretendemos ao propor educar? Qual homem desejamos constituir ao educar? Que visões de mundo são mais adequadas ao bem-viver para todos?

            Educação com qualidade é algo complexo, mas pode ser entendida, por exemplo, como aquela que valoriza os conteúdos científicos e coloca-os a serviço da vida, do bem-viver. Portanto, no momento histórico atual educação com qualidade é aquela que proporciona criar ideias para um mundo melhor, cuja lógica da vida sobreponha-se a do capital. Neste sentido, busca alternativa ao modelo social, econômico, cultural e político atual. Enfim que faz uma abordagem crítica das práticas sociais. Assim, como afirma Freire, “abordar criticamente as práticas e as experiências de outros é compreender a importância dos fatores políticos, históricos, culturais e econômicos relacionados com a prática e a experiência a ser reinventada” (FREIRE, 1994, p. 31).

            Para Freire, a educação com qualidade postula uma prática pedagógica que desperta o sujeito para a luta por melhores condições de vida. Significa, neste caso, possibilitar ao sujeito aprender a organizar-se, mobilizar-se, conceber a justiça com um bem a ser alcançado. Mais, ainda:

[...] na perspectiva da justiça, é exatamente aquela educação que desperta os dominados para a necessidade da briga, da organização, da mobilização crítica, justa, democrática, séria, rigorosa, disciplinada, sem manipulações, com vista à reinvenção do mundo, a reinvenção do poder tomado, o que vale dizer que essa educação tem que ver com uma compreensão diferente do desenvolvimento, que implica uma participação, cada vez maior, crescente, crítica, afetiva, dos grupos populares (FREIRE, 2001, p. 99).

 

            Educação com qualidade para o filósofo italiano Antonio Gramsci é aquela que possibilita a hegemonia das camadas populares. Sendo assim, desenvolve capacidade de liderança, de administração, de voz e vez, de autonomia, autoria de ideias. Enfim, a “hegemonia é a identificação da nova tática e da nova estratégia que devem ser usadas em situações determinadas” (GRUPPI, 1996, p. 81).

            Educação, neste sentido, contribui para a hegemonia porque oferece a possibilidade de configurar uma crítica em torno da realidade concreta. Mais, ainda, “a noção de hegemonia enquanto totalidade significa, portanto, a unificação da estrutura e superestrutura, da atividade de produção e de cultura, do particular e do universal político” (SIMIONATTO, 2004, p. 47-48).

            Para Gruppi, “o processo da hegemonia é então um processo de unificação do pensamento e ação [...]’ (GRUPPI, 1996, p. 82). Portanto, a hegemonia é a busca do consenso coletivo em torno de um objetivo postulado. No caso, das camadas subalternas, isto acontece quando atingem um grau de desenvolvimento político, a partir de uma compreensão da história como possibilidade. Então, por causa disso, constroem um imaginário que outro mundo é possível e, mediante a postura crítica e utopia, se lançam na luta por hegemonia, isto é, processo de convencimento na importância da luta social.

Gramsci, ao analisar o contexto de formação da consciência criadora, explica que o homem tem necessidade de estabelecer um entendimento crítico de si mesmo. Segundo ele, “a compreensão de si mesmo é obtida, portanto, através de uma luta de ‘hegemonias’ políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real (GRAMSCI, 1981, p. 21).

Gramsci, refletindo sobre a historicidade, concluiu que o homem é resultado de seus atos. Assim, segundo ele:

Nasceu daquilo que refletimos sobre nós mesmos e sobre os outros e queremos saber, em relação ao que refletimos e vimos, o que somos e em que coisa nos podemos tornar, se realmente e dentro de que limites somos “artíficies de nós próprios”, da nossa vida, do nosso destino (GRAMSCI, 1981, p. 47).

 

            Para isso, portanto necessita se descobrir com sujeito da história, conceber-se com protagonista dela e lutar para realizar sonhos. É, assim, o que Paulo Freire diz, o oprimido deve descobrir-se que pode se libertar. Assim, “a libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É a práxis, que implica a ação e a reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo (FREIRE, 2005, p. 67).

            Mais, sobre a práxis como metodologia libertadora trataremos, juntamente com a dialética, na próxima parte.

 

 

Educação de qualidade exige a práxis e a dialética como metodologias

           

            Então, como foi exposto na primeira parte, educação de qualidade nos interpela a educar para resistir política e ideologicamente à ditadura do capital. Filosoficamente, trabalhar na construção de alternativas ao modelo social atual, com vista a felicidade das pessoas, com vida digna, construir, nesse viés, movimentos, sonhos por um mundo melhor. Propugnar, assim, por uma sociedade diferente, por um mundo pensado a partir dos debaixo para cima.

            Neste caso, é indispensável a práxis como metodologia para construir conhecimentos para novas formas de sociabilidades, mais solidárias e democráticas. Em face de tal concepção, faz-se necessário uma ruptura epistemológica, ou seja, repensar como o conhecimento é produzido e para qual finalidade. Neste caso, a reflexão sobre a relação dialética entre pensamento e ação é fundamental.

            Práxis é fundamentalmente esta relação de reflexão da teoria sobre a prática, na busca constante do fazer pedagógico dinâmico e determinado a rever seus conceitos. “A práxis é a esfera do humano” (Kosik, 1976, p. 201-202). Então, entender-se na práxis é condição para compreensão do processo histórico intencional, marcado por interesses políticos subjacentes, contradições e paradoxos.

            Educação com qualidade para as camadas populares tem na práxis a sua essência. Pois:

A práxis na sua essência e universalidade é a revelação do segredo do homem como ser ontológico, como ser que cria a realidade (humano-social) e que, portanto, compreende a realidade (humana e não-humana, a realidade na sua totalidade). A práxis do homem não é atividade prática contraposta à teoria; é determinação da existência humana como elaboração da realidade (KOSIK, 1976, p. 202).

 

            Em face de tal conceituação, pela visão práxica o homem se compreende como ser histórico, que é objeto da história e, ao mesmo tempo, construtor dela. Importa, nesse viés, ressaltar que mediante está reflexão teórica sobre suas práticas cotidianas o sujeito percebe-se como ser em possibilidade de construir a história com suas ações (ou omissões). Assim, constitui-se fundamental no processo educativo emancipador esta concepção.

            Neste sentido, para Kosik, “a práxis é ativa, é atividade que se produz historicamente [...], unidade do homem e do mundo, da matéria e do espírito, de sujeito e objeto, do produto e da produtividade” (KOSIK, 1976, p. 202). Então, o homem é uma totalidade, implicado por diversas dimensões. Assim, neste caso avaliar como se faz pela Prova Brasil e outras por aí, apenas conhecimentos de língua portuguesa e matemática não dão conta da complexidade do ser humano. Pois, educação com qualidade supõe desenvolver o sujeito em seus diversos sentidos, lógico, lingüístico, artístico, social político, etc. Neste sentido, Freire escreveu:

[...] vêm se assistindo cada vez mais como discursos verticais, de cima para baixo, mas insistindo se passar por democráticos. A questão que se coloca a nós, enquanto professores e alunos críticos e amorosos da liberdade, não é, naturalmente, ficar contra a avaliação, de resto necessária, mas resistir aos métodos silenciadores que ela vem sendo às vezes realizadas. A questão que se coloca a nós é lutar em favor da compreensão e da prática da avaliação enquanto instrumento de apreciação do quefazer de sujeitos críticos a serviço, por isso mesmo, da libertação e não da domesticação. Avaliação em que se estimule o falar a como caminho do falar com (FREIRE e MACEDO, 1996, p. 130-131).

 

            Portanto, como nos legou Paulo Freire, a educação de qualidade política acontece na dialogicidade, ou seja, no partilhamento de experiências e trocas de conhecimentos e saberes. O mundo vivido e imaginado coloca-se como objeto a ser decodificado epistemologicamnte. Em função disso, criamos condições para leitura da palavra e do mundo, condição fundamental num processo de educação emancipador.

            Segundo Gadotti:

Em Paulo Freire o diálogo dos oprimidos não é só o encontro de dois sujeitos que buscam o significado das coisas – o saber--, mas um encontro que se realiza na práxis –ação + reflexão--, no engajamento, no compromisso com a transformação social. Dialogar não é trocar ideias. O diálogo que não leva a ação transformadora é puro verbalismo (GADOTTI, 1995, p. 15).

 

            É neste plano que podemos entender a educação das camadas populares como algo libertador das ideologias neoliberais e potencializar a luta por um mundo melhor, no qual a contradição opressores-oprimidos se desapareçam, conforme Paulo Freire. Para ele:

Este é o trágico dilema dos oprimidos, que a sua pedagogia tem de enfrentar.

A libertação, por isto, é um parto. E um parto doloroso. O homem que nasce deste parto é um homem novo que só viável na e pela superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos.

A superação da contradição é o parto que traz ao mundo este homem novo não mais opressor; não mais oprimido, mas homem libertando-se (FREIRE, 2005, p. 38).

 

            Fazer educação neste sentido, então, pressupõe intervir na realidade opressora, denunciar as mazela sociais e ambientais do sistema atual e anunciar um outro mundo possível, mediante a participação política e engajamento nos movimentos sociais populares. Indica criar condições de formação de subjetividades solidárias, capazes de acreditar em novas relações entre os homens e mulheres na construção da história. Assim, aprender é um entendimento sobre concepções de mundo, formas de perceber a realidade configurada e possibilidades de outros modelos  sociais, culturais, econômicos e culturais.

            Ampliando o foco, educar para promover transformações na sociedade tem a ver com a luta por um ensino que dê oportunidades de todos compreenderem dialeticamente o mundo humano-social. Vale notar que a pertinência da dialética está em compreender o conhecimento em movimento, sempre se transformado, de acordo com a dinâmica histórica. Portanto, se está em movimento quem dá o ritmo deste movimento são homens e mulheres.

            Então, o nosso fazer pedagógico, além da práxis como metodologia, também, necessita da dialética para dar conta das demandas e litígios colocados pelo contexto atual. Para Kosik:

O pensamento dialético parte do pressuposto de que todo o conhecimento humano se processa num movimento em espiral, do qual cada início é abstrato e relativo. Se a realidade é um todo dialético e estruturado, o conhecimento concreto da realidade não consiste em um  acrescentamento sistemático de fatos a outros, e de noções a outras noções. É um processo de concretização que precede do todo para as partes e das partes para o todo, dos fenômenos para a essência e da essência para os fenômenos, da totalidade para as contradições e das contradições para a totalidade; e justa,mente neste processo de correlações em espiral no qual todos os conceitos entram em movimento recíproco e se elucidam mutuamente, atinge a concreticidade (KOSIK, 1976, p. 41-42).

 

            Sendo assim, educar neste sentido é muito mais que “depositar conteúdos dentro dos alunos”, segundo a lógica conservadora, como denominava Paulo Freire de educação bancária. É, no entanto, proporcionar o desenvolvimento da capacidade crítico-reflexiva do sujeito, com vista a elaborar dialeticamente as concepções de mundo e compreender a práxis social em sua complexidade, podendo, assim, agir e transformar a realidade. Pois,

O conhecimento dialético da realidade não deixa intactos os conceitos no ulterior caminho do conhecer; não é uma sistematização dos conceitos que procede por soma, sistematização essa fundada sobre uma base imutável e encontrada uma vez por todas: é um processo em espiral de mútua compenetração e elucidação dos conceitos, no qual abstratividade (unilateralidade e isolamento) dos aspectos é superada em sua correlação dialética, quantitativo-qualitativa, regressivo-progressiva (KOSIK, 1976, p. 42).

 

            Educação para transformação da realidade, tal como entendemos aqui, importa compreender a construção de conhecimentos e a representação da mesma de forma dialética, em constantes movimentos, no qual a cada momento requer novas posturas diante dos conceitos. Por isto, propomos a dialética como concepção metodológica que consegue dar uma noção mais condizente com os desafios da educação transformadora. Visto que:

A compreensão dialética da totalidade significa não só que as partes se encontram em relação de interna interação e conexão entre si e com o todo, mas também que o todo não pode ser petrificado ma abstração situada por cima das partes, visto que o todo se cria a si mesmo na interação das partes (KOSIK, 1976, p. 42).

 

            Neste sentido, portanto, práxis e dialética se constituem, no nosso entendimento, duas concepções metodológicas importantíssimas para uma educação com qualidade. Assim entendida como aquela que consegue ampliar o horizonte de interpretação da totalidade sistêmica e, assim, conseguir possibilitar uma leitura do mundo, além da simplificação, que, geralmente, é feito pela mídia. Cumpre, outrossim, salientar que a nossa capacidade de compreensão das capacidade de intervenção social e política tem, em muito, a ver com a nossa concepção de mundo, de sociedade e de homem. Portanto, a educação transformadora é aquela que, por exemplo, consegue dar esta performance ao desenvolvimento do sujeito.

            Educação com qualidade, na lógica da busca de um modelo social alternativo, em suma: é aquela que proporciona condições para a intervenção social e política, então, para a participação política das camadas sociais subalternas e engajamento político por um mundo melhor.

 

 

Considerações finais

 

            Portanto, não chegamos ao fim das reflexões sobre uma educação de qualidade, pois o tema requer a continuação de discussões sobre a temática, nos espaços sociais de marcadores de posições políticas em favor de concepções e táticas de luta por um ensino de qualidade, nos aspectos técnicos e políticos, sobretudo. Pois, a escola pública, principalmente, necessita de perspectivas pedagógicas emancipadoras, assim podemos dizer estamos caminhando rumo à qualidade. Visto que qualidade aqui significa, em sentido amplo, oferecer condições para instaurar a lógica da vida e possibilitar o bem-viver, no sentido das camadas sociais subalternas.

 

 

 

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 44ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

---------. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

---------. Pedagogia dos sonhos possíveis. Ana Maria Freire (org.). São Paulo: Ed. Unesps, 2001.

FREIRE, Paulo & MACEDO, Donaldo. Alfabetização: leitura do mundo leitura da palavra. 2.ed. Riod de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

 

GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Práxis. Prefácio de Paulo Freire. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 1995.

 

GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história. Tradução de Carlos Nelson Coutinho, 4.ed.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981

 

GRUPPI, Luciano. Tudo começou com Maquiavel: as concepções de Estado em Marx, Engels, Lênin e Gramsci. Tradução de Dario Canali. 14.ed.. Porto Alegre; L&PM, 1996.

 

KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Tradução de Célia Neves e Adalberto Toríbio. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

 

SIMIONATTO, Ivete. Gramsci: sua teoria, incidência no Brasil, influência no Serviço Social. 3.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC; São Paulo: Cortez Editora, 2004.

 

 



*               Professor, licenciado em Estudos Sociais, graduado em História, especialista em Humanidades, mestrando em Educação nas Ciências, na Universidade Regional do Noroeste do Estado do RS (UNIJUÍ). Bolsista da CAPES. Atua como docente na rede de ensino pública básica do Estado do RS. Email: luizetevaldo@yahoo.com.br