
O ENSINO/APRENDIZAGEM DE LEITURA
e-mail: jadermacondo@hotmail.com
Jáder vanderlei Muniz de Souza *
A leitura é basicamente um processo
de representação. Como esse processo envolve o sentido da visão, ler é, na sua
essência, olhar para uma coisa e ver outra. A leitura não se dá por acesso
direto à realidade, mas por intermediação de outros elementos da realidade.
Nessa triangulação da leitura o elemento intermediário funciona como um
espelho; mostra um segmento do mundo que normalmente nada tem a ver com sua
consistência física. Ler é, portanto, reconhecer o mundo através de espelhos.
Como esses espelhos oferecem imagens fragmentadas do mundo, a verdadeira
leitura só é possível quando se tem um conhecimento prévio desse mundo.
Embora a leitura, na concepção mais
comum do termo, processa-se através da língua, também é possível a leitura
através de sinais não-linguísticos. Pode-se ler tristeza nos olhos de alguém, a
sorte não mão de uma pessoa ou o passado de um povo nas ruínas de uma cidade.
Não se lê, portanto, apenas a palavra escrita mas também o próprio mundo que
nos cerca.
O processo de triangulação, no
entanto, é o mesmo. Ao fazermos a leitura sociológica de uma rua da cidade
olhamos para as casas, o calçamento, as pessoas, mas vemos a realidade
sociológica refletida por essa rua.
O segundo elemento da realidade não
está em relação unívoca com o primeiro. Sendo o primeiro elemento um espelho, a
visão a ser dada por esse espelho, depende da posição da pessoa em relação ao
espelho. Diferentes posições refletem diferentes segmentos da realidade. Numa
leitura do mundo, o objeto para o qual se olha funciona como um espelho. Se o
objeto for, por exemplo, uma casa, vai oferecer tantas leituras quantas forem
as posições de cada um dos observadores em relação à casa. O arquiteto fará uma
leitura arquitetônica, o sociólogo uma leitura sociológica, o ladrão uma
leitura estratégica, e assim por diante.
Sem triangulação não há leitura. Às
vezes, no entanto, a triangulação não é possível. Quando o leitor diz “li mas
não entendi”, ele ficou apenas no primeiro elemento da realidade; olhou mas não
viu. Ouve tentativa de leitura mas não ouve leitura.
Entre o leitor e o que ele vê
através da leitura pode haver mais de um espelho. Ocorre então que aquilo que é
percebido é um reflexo do reflexo da realidade. Esse parece ser principalmente
o caso da leitura de uma obra literária, que pode implicar não apenas reflexos
de reflexos mas verdadeiro encadeamentos de reflexos. Na leitura de um poema,
por exemplo, um determinado segmento da realidade (um dos possíveis
significados do poema) pode ser refletido através de vários espelhos até chegar
à percepção do leitor.
Primordialmente, na sua concepção
mais geral e fundamental, ler é usar segmentos da realidade para chegar a
outros segmentos. Dentro dessa acepção, tanto a palavra escrita como outros
objetos podem ser lidos, desde que sirvam como elementos intermediários,
indicadores de outros elementos. Esse processo de triangulação, de acesso
indireto à realidade, é a condição básica para que o ato da leitura ocorra.
·
Perspectivas
de leitura:
ü
Leitura
como extração de significado do texto
Um dos axiomas da leitura é de que
ler implica significado, sendo significado aquele segmento da realidade a que
se chega através de um outro segmento. O significado pode estar em vários
lugares, mas ao se usar o verbo extrair, põe-se o significado dentro do texto.
Uma analogia que parece refletir adequadamente esta acepção de leitura é a de que
o texto é uma mina, possivelmente com inúmeros corredores subterrâneos, cheia
de riquezas, mas que precisa ser persistentemente explorada pelo leitor.
Essa leitura extração-de-significado
está associada a idéia de que o texto tem um significado preciso, exato e
completo, que o leitor-minerador pode obter através do esforço e da
persistência. Como o texto contém o significado, esse texto precisa ser
apreendido pelo leitor na sua íntegra. A leitura deve ser cuidadosa, com
consulta ao dicionário sempre que uma palavra desconhecida for encontrada e
anotação da palavra para revisões posteriores e enriquecimento do vocabulário.
Frases de compreensão difícil devem ser lidas e relidas até que a compreensão
fique clara.
A adivinhação de palavras novas pelo
contexto deve ser evitada porque a leitura é um processo exato e a compreensão
não comporta aproximações. O texto está cheio de armadilhas para o leitor
impulsivo que não sabe parar e refletir diante dos vocábulos que só são
semelhantes na aparência ou de figuras de linguagem que precisam ser
reconhecidas para que se possa apreciar a beleza do texto. Tudo que o texto
contém precisa ser detectado e analisado para que o seu verdadeiro significado
possa ser extraído.
Erros de leitura oral são vistos
como provas de deficiência em leitura. A leitura é um processo linear que se
desenvolve palavra por palavra. O significado é extraído – vai-se acumulando –
à medida em que essas palavras vão sendo processadas.
O aspecto visual da leitura – o
papel dos olhos – é de extrema importância nesta acepção de leitura. O
significado vai do texto ao leitor, através dos olhos. Nenhuma palavra é
entendida antes de ser vista. O raciocínio do leitor é comandado pela
informação que entra pelos olhos.
O leitor está subordinado ao texto,
que é o pólo mais importante da leitura. Se o texto for rico, o leitor se
enriquecerá com ele, aumentará seu conhecimento de tudo porque o texto é mundo.
Se o texto for pobre, mina sem ouro, o leitor perderá seu tempo, porque nada há
para extrair.
O leitor-minerador tem no entanto
muito a ganhar, porque há uma riqueza incalculável nos livros tudo que ele de
melhor produziu o pensamento humano está registrado na permanência da palavra
escrita.
A compreensão é o resultado do ato
da leitura. O valor da leitura só pode ser medido depois que a leitura
terminou. A ênfase não está no processe da compreensão, na construção do
significado, mas no produto final dessa compreensão.
A leitura é um processe ascendente.
A compreensão sobe do texto ao leitor na medida exata em que o leitor vai
avançando no texto. As letras vão formando palavras, as palavras frases e as
frases parágrafos. O texto é processa do literalmente da esquerda para a
direita e de cima para baixo.
A concepção da leitura como um
processo de extração tem, no entanto, sérias limitações. O verbo extrair, em
primeiro lugar, não reflete o que
realmente acontece na leitura. O leitor não extrai um conteúdo do texto,
como se o texto fosse uma mina que se esvazia com a mineração. O conteúdo não
se transfere do texto para o leitor, mas antes se reproduz no leitor, sem
deixar de permanecer no texto. Conceptualmente, não teríamos portanto uma
extração, mas uma cópia.
Na realidade, o texto não possui um
conteúdo mas reflete-o como um espelho. Assim como não há qualquer identidade
física entre o material de que é feito o espelho e o material que ele reflete,
não existe também uma relação unívoca entre o texto e o conteúdo. Um mesmo
texto pode refletir vários conteúdos, como vários textos podem também refletir
um só conteúdo.
ü
Leitura
com atribuição de significado ao texto
A acepção de
que ler é atribuir significado, põe a origem do significado não no texto mas no
leitor. O mesmo texto pode provocar em cada leitor e mesmo em cada leitura uma
visão diferente da realidade.
A visão da realidade provocada pela
presença do texto depende da bagagem de experiências prévias que o leitor traz
para a leitura. O texto não contém a realidade, reflete apenas segmentos da
realidade, entremeados de inúmeras lacunas, que o leitor vai preenchendo com o
conhecimento prévio que possui do mundo.
A qualidade do ato da leitura não é
medida pela qualidade intrínseca do texto, mas pela qualidade da reação do
leitor. A riqueza da leitura não está necessariamente nas grandes obras clássicas,
mas na experiência do leitor ao processar o texto. O significado não está na
mensagem do texto mas na série de acontecimentos que o texto desencadeia na
mente do leitor.
Ler não implica necessariamente
apreender a mensagem na sua íntegra. A leitura pode ser lenta e cuidadosa como
rápida e superficial, com ou sem consulta ao dicionário. A adivinhação de
palavras desconhecidas pelo contexto é incentivada. Ao encontrar uma frase de
com preensão difícil, o leitor não deve parar e reler, mas ler adiante; provavelmente
entendendo a frase ao chegar ao fim do parágrafo.
Erros de leitura oral são
interpretados do ponto de vista qualitativo e considerados apenas como desvios.
Não importa cometer muitos erros; o que imteressa é o tipo de erro cometido. Se
no texto, por exemplo, estiver escrito “gatinho” e o leitor ler “bichinho”
mantendo a coerência interpretativa, considera-se que a qualidade da leitura
não é prejudicada.
A leitura não é interpretada como um
procedimento linear, onde o significado é construído palavra por palavra, mas
como um procedimento de levantamento de hipóteses. O que o leitor processa da
página escrita é o mínimo necessário para confirmar ou rejeitar hipóteses.
Os olhos não vêem o que realmente
está escrito na pagina, mas apenas determinadas informações pedidas pelo
cérebro. A compreensão não começa pelo que esta na frente dos olhos, mas pelo
que esta atrás deles. A palavra “nós”, por exemplo, poderá ser entendida como
plural de “nó” ou como pronome pessoal, dependendo do que o cérebro mandou o
olho buscar, baseado naturalmente no contexto em que se encontra a palavra.
A compreensão não é um produto
final, acabado, mas um processo que se desenvolve no momento em que a leitura é
realizada. A ênfase não está na dimensão espacial e permanente do texto mas no
aspecto temporal e mutável do ato da leitura. O interesse do pesquisador ou do
professor não está no produto final da leitura, na compreensão extraída do
texto, mas principalmente em como se dá essa compreensão, que estratégias, que
recursos, que voltas o leitor dá para atribuir um significado ao texto.
A leitura é um processo descendente;
desce do leitor ao texto. A compreensão começa com o estabelecimento do tópico,
sugerido no primeiro contato com o texto, ainda em termos gerais. Usando os
traços mais salientes da pagina a ser lida – título, gráficos, ilustrações,
nome do autor, etc. – o leitor levanta uma série de hipóteses e começa a
testá-las, desde o nível do discurso até o nível grafofonêmico, passando pelos
níveis sintático e lexicais.
A acepção da leitura como um ato de
atribuição de significado também tem seus problemas. Teoricamente, parece haver
um paradoxo quanto à quantidade de informação fornecida pelo texto, que pode
ser a mais ou menos, mas dificilmente na quantidade certa.
Há informação a mais quando o texto
parece oferecer mais do que o leitor precisa. Diz-se que o texto é redundante.
Ler com eficiência neste caso é saber explorar a redundância do texto,
processando apenas a informação necessária para confirmar ou rejeitar as
hipóteses inicialmente levantadas.
Há informação a menos quando o texto
é visto como uma seqüência de lacunas. Existe muito conhecimento comum entre o
escritor e o leitor, e o escritor capitaliza em cima desse conhecimento no
momento em que produz o texto, deixando muita coisa para ser preenchida pelo
leitor. Ler é neste caso preencher essas lacunas deixadas pelo escritor.
Dentro dessa mesma concepção de
leitura com atribuição de significado há portanto duas concepções antagônicas
de texto. Há os que vêem o texto como uma fonte de redundâncias e os que o
percebem cheio de lacunas. A cada uma dessas visões corresponde também uma
visão diferente de leitura: um processo altamente seletivo quando a informação
é redundante e extremamente construtivo quando a informação é truncada. Em
ambos os casos o papel do leitor no entanto é mais ou menos o mesmo. Quer ele
use apenas parte da informação fornecida pelo texto, quer ele preencha as
lacunas deixadas pelo mesmo, a obtenção do significado se dá sempre por força
de sua contribuição. Num caso o leitor contribui com aquilo que o texto não
tem; no outro com aquilo que o texto já tem, preferindo no entanto usar sua
contribuição pessoal em vez da informação redundante do texto.
O pressuposto de que o mesmo texto
pode proporcionar uma leitura diferente em cada leitor e até de que o mesmo
leitor não fará leituras idênticas de um mesmo texto, tem também levantado
alguns problemas. Ainda que toda experiência com o texto que remete o leitor de
algum modo a um determinado seguimento da realidade seja em principio limitar
as possíveis interpretações de um determinado texto. Se alguém interpreta um
poema satírico ao pé da letra, não deixa essencialmente de realizar um ato de
leitura, de atribuir um significado ao texto, mas deixou de perceber que o que
estava sendo refletido pelo texto não era a realidade, mas um reflexo do
reflexo da realidade.
A ênfase na construção de sentido a
partir do leitor pode exigir portanto que se defina o perfil desse leitor, em
termos mais ou menos ideais. Nesse caso, pode executar o ato da leitura, o
leitor precisa conhecer o jogo de espelhos que se interpõe entre ele e a
realidade. Podemos dizer que o leitor precisa possuir, além da competência
sintática, semântica e textual, uma competência específica da realidade
histórico-social refletida pelo texto.
ü
Uma
visão conciliatória
Ao definirmos
a leitura quer como um processo de extração de significado (ênfase no texto)
quer como um processo de atribuição de significado (ênfase no leitor) encontramos,
em ambos os casos, uma série de problemas mais ou menos intransponíveis. A
complexidade do processo da leitura não permite que se fixe em apenas um de
seus pólos, com exclusão do outro. Na verdade, não basta nem mesmo somar as
contribuições do leitor e do texto. É preciso considerar também um terceiro
elemento: o que acontece quando leitor e texto se encontram. Para compreender o
ato da leitura temos que considerar então (a) o papel do leitor, (b) o papel do
texto e (c) o processo de interação entre o leitor e o texto.
Para melhor explicar esse processo
de interação entre leitor e texto, vamos fazer uma analogia entre o processo da
leitura e uma reação química. Na leitura, como na química, para termos uma
reação é necessário levar em conta não só os elementos envolvidos, mas também
as condições necessárias para que a reação ocorra. O simples confronto do
leitor com o texto não garante a eclosão de todos os acontecimentos que
caracterizam o ato da leitura. A produção de uma nova substancia – no caso a
compreensão – só ocorre se houver afinidade entre os elementos leitor e texto e
se determinadas condições estiverem presentes.
O leitor precisa possuir, além das
competências fundamentais para o ato da leitura, a intenção de ler. Essa
intenção pode ser caracterizada como uma necessidade que precisa ser
satisfeita, a busca de um equilíbrio interno ou a tentativa de colimação de um
determinado objetivo em relação a um determinado texto.
Essa
intencionalidade é característica exclusiva do ser humano. Uma maquina pode ser
programada para resumir ou parafrasear um texto, detectar anomalias semânticas
e até responder perguntas implícitas; seria difícil, no entanto, imaginar uma
maquina que, espontaneamente, ficasse horas entretida com a leitura de um
grande romance. A máquina não teria a intenção do lazer, como não teria
intenção de obter informações da bolsa de valores ou de fazer uma leitura
critica de um poema de Mallarmé.
Satisfeita essa condição básica de
intencionalidade, inicia-se o processo complexo de interação entre o leito e o
texto. A leitura é um processo feito de muitos processos, que ocorrem tanto
simultânea como seqüencialmente; esses processos incluem desde habilidades de
baixo nível, executadas de modo automático na leitura proficiente, até estratégias
de alto nível, executadas de modo consciente.
O processo da leitura fluente pode
ser representado por uma pirâmide, em cuja base estão as habilidades
elementares, envolvendo subprocessos que ocorrem em grandes feixes, de modo
rápido, simultâneo e abaixo do nível da consciência. Como esse processo ocorrem
em feixes, fala-se, nesse nível de leitura, de um processamento em paralelo.
A leitura, mecanicamente, dá-se por
fixações dos olhos em determinados segmentos do texto, que podem ser uma
palavra ou um pequeno grupo de palavras. Ao que parece o leitor não processa a
letra que compõem um determinado segmento de modo linear, da esquerda para a
direita, mas de modo simultâneo. Também parece que as letras não são
processadas integralmente, em todos os detalhes, mas apenas nos traços
distintivos. O leito não tem na memória um molde para cada letra do alfabeto.
Uma leitura feita pelo cotejo de cada letra com esse molde fixo seria
extremamente complicada e ante econômica, já que seria necessário não um molde
para cada letra do alfabeto, mas para cada tipo possível de letra (maiúscula,
minúscula, negrito, itálico, todos os diferentes tipo usados em diferentes
maquinas tipográficas e de escrever, sem falar nas diferentes caligrafias de
cada pessoa).
ü
O
leitor-aluno
Para realizar uma leitura profunda,
atribuindo o máximo de sentido possível ao texto, é necessário possua não a
intenção de ler, como outras habilidades, indispensáveis ao processo de relação
com o texto. Ler não é apenas decodificar, mas pressupõe uma perfeita
decodificação, além de capacidade de inferência, utilizando conhecimentos de
mundo e toda sorte de conhecimentos prévios, na contextualização do tema
abordado.
A boa formação de um leitor implica no desenvolvimento das habilidades citadas, ligadas incondicionalmente ao hábito da leitura, não apenas como atividade em sala de aula ou em tarefas relacionadas, mas como parte integrante do dia-a-dia do leitor-aluno. Entretanto a escola tem papel preponderante nesse aspecto, devendo contribuir para que esse hábito se desenvolva.