
A Dislexia como uma das principais causas dos distúrbios de aprendizagem na
área da leitura e da escrita.
Nelita Pires de Figueiredo*
E-mail: nelita.pires@hotmail.com
O objetivo deste artigo é
discorrer sobre a importância de se entender a DISLEXIA como um dos múltiplos
fatores que interferem no processo de ensino-aprendizagem.
Por que uma criança não consegue
aprender da mesma forma e no mesmo tempo dos demais colegas de sala de aula,
embora apresente inteligência normal,
integridade sensorial e receba estimulação e ensino adequados? Ainda nos dias
atuais essa criança chega a ser confundida com portadores de
necessidades especiais e muitas vezes, sendo rotulada, de deficiente
mental, incompetente, desleixada ou
irresponsável. O que
essa atitude dentro da sala de aula, tem acarretado
ao aluno que não consegue ler, escrever e não tem boa ortografia para
idade? Pode a criança ser responsabilizada por tais deficiências?
Entre as várias causas de problemas de
aprendizagem, as últimas descobertas científicas apontam para Dislexia sendo
uma delas. O termo dislexia é aplicável a uma situação na qual a criança é
incapaz de ler com a mesma facilidade com as quais lêem crianças com faixa etária correspondente.
De acordo com estudos realizados, a definição
de DISLEXIA vem do grego e do latim: Dis, de distúrbio, vem do latim, e Lexia,
do grego, significa linguagem. Então, a Dislexia é uma disfunção neurológica
que apresenta como conseqüência dificuldades na leitura e escrita.
“Entendemos por dislexia específica ou dislexia
de evolução um conjunto de sintomas reveladores de uma disfunção parietal (o
lobo do cérebro onde fica o centro nervoso da escrita), geralmente hereditária,
ou às vezes adquirida, que afeta a aprendizagem da leitura num contínuo que se
estende do leve sintoma ao sintoma grave. A dislexia é freqüentemente
acompanhada de transtornos na aprendizagem da escrita, ortografia, gramática e
redação. A dislexia afeta os meninos em uma proporção maior do que as meninas”
(M. Condemarin e M. Blomquist, Dislexia, manual de leitura corretiva, p. 21).
Ao que parece, por trás desses problemas
específicos de aprendizagem, existe sempre um fator biológico, hereditário,
isto é, há uma tendência de a mesma dificuldade ocorrer em outros membros da
família. O disléxico tem geralmente uma história de vida, na qual, algum
parente próximo apresenta a mesma deficiência de linguagem. Outras vezes,
nasceu provavelmente de um parto
difícil, em que podem ter ocorrido algum destes problemas: a- anoxia, ou seja,
asfixia relativa; b- prematuridade do feto ou peso abaixo do normal; c-
hipermaturidade, ou seja, o nascimento passou da data prevista para o
parto. Adquiriu, quando criança, alguma
doença infectocontagiosa, que tenha produzido convulsões ou perda de
consciência. Considera-se ainda, o atraso na aquisição da linguagem ou
perturbações na articulação da mesma, bem como, atraso para andar, problemas de
dominância lateral (uso retardado da mão esquerda ou direita).
Segundo Drouet (1990), o professor de Ensino
fundamental não tem a formação necessária para diagnosticar graves distúrbios
de aprendizagem. Através da observação cuidadosa, ele poderá detectar
diferenças ou falhas nos desempenhos de seus alunos.
A desinformação
e a dificuldade de identificar possíveis “sinais” de dislexia, por parte dos
pais e professores faz com que a criança mantenha esse
problema por todo o considerado período da primeira infância. No entanto, vários
estudos realizados têm constatado possíveis sinais de dislexia nesse período,
por exemplo, parece difícil para essa criança entender o que está ouvindo;
tendência a hiper ou a hipo-atividade motora; dificuldade para aprender a andar
de triciclo; atraso no desenvolvimento motor desde a fase do engatinhar, sentar
e andar; atraso ou deficiência na aquisição da fala; chora muito e parece
inquieta ou agitada com muita freqüência entre outros.
Algumas características marcantes da criança em idade escolar,
sendo sintoma mais notório, a acumulação e persistência de erros ao ler e
escrever. A análise qualitativa da leitura oral de um disléxico revelará
alguma ou várias das seguintes
dificuldades:
1 – confusão entre letras, sílabas ou
palavras com diferenças sutis de grafia: a-o; c-o; e-c; f-t; h-n; i-j; m-n;
v-u; etc.
2 – Confusão entre letras, sílabas ou palavras
com grafia similar, mas com diferente orientação no espaço: b-d; b-p; b-q; d-b;
d-p; d-q; u-n; w-m; a-e.
Nelita Pires de Figueiredo*
3 – Confusão entre letras que possuem um
ponto de articulação comum e cujos sons são acusticamente próximos: d-t; j-x;
c-g; m-b; m-b-p; v-f.
4 – Inversões parciais ou totais de sílabas
ou palavras: me-em; sol-los; som-mos; sal-las; pal-pla.
5 – Substituição de palavras por outras de
estrutura mais ou menos similar ou criação de palavras, porém com diferente
significado: soltou/salvou; era/ficava.
6 – Contaminações de sons.
7 – Adições ou omissões de sons, sílabas ou
palavras: Famoso substituído por fama; casa por casaco.
8 –
Repetição de sílabas, palavras ou frases.
9 –
Pular uma linha, retroceder para a linha anterior e perder a linha ao
ler.
10 – Excessivas fixações do olho na linha.
11 –Soletração defeituosa: reconhece letras
isoladamente, porém sem poder organizar a palavra como um todo, ou então lê a
palavra sílaba por sílaba, ou ainda lê o texto “palavra por palavra”.
12 – Problemas de compreensão.
13 – Leitura e escrita em espelho em casos
excepcionais.
14 – Ilegibilidade.
15 – Em geral, a dificuldade do disléxico no
reconhecimento das palavras obrigam-no a realizar uma leitura hiperanalítica e
dedifratória. Como dedica seu esforço à tarefa de decifrar o material, diminuem
significativamente a velocidade e a compreensão necessária para a leitura
normal.
Sendo comum que estas com mais de doze anos
de idade não revelem os sinais descritos através do exame de sua leitura oral,
entretanto é fácil detectá-los na leitura silenciosa: ao ler, realizam uma
leitura subvocal, isto é murmuram ou movem os lábios, já que se vêem obrigados
a pronunciar as palavras para poder compreendê-las. Na medida em que, ao ler em
silêncio, utilizam a mesma técnica que na leitura oral, a velocidade resulta
excessivamente lenta.
Conforme Jonhson e Myklebust (1987), as
características descritas na leitura dos disléxicos raramente se apresentam
isoladamente. Freqüentemente se acompanham de outras perturbações que alteram a
aprendizagem., as mais comuns são:
Alterações de memória: Alguns disléxicos
apresentam dificuldades para a lembrança imediata. Outros apresentam muita
dificuldade para lembrar fatos passados. Alguns não conseguem lembrar palavras
ou sons que escutam. Outros apresentam dificuldades para memorizar visualmente
os objetos, palavras ou letras.
Alterações na memória de séries e seqüências:
Freqüentemente o disléxico apresenta dificuldade para aprender séries, tais
como os dias da semana, meses do ano e o alfabeto. Custa-lhe a aprender a olhar
a hora e tem dificuldades para relacionar um acontecimento com outro no
tempo.
Orientação direita-esquerda: Freqüentemente são os disléxicos incapazes de
orientar-se com propriedade no espaço e aprender a noção de direita e esquerda.
Geralmente a criança não consegue situar a direita e a esquerda em seu próprio
corpo ou quando olha para outra pessoa. Quando tenta obedecer a instrução na
sala de aula ou na ginástica, sente-se confusa e frustrada. Da mesma forma, tem
forma tem freqüentes dificuldades para situar-se com relação aos mapas, globos
terrestres e em seu próprio ambiente.
Linguagem escrita: Quando a criança não
consegue ler com facilidade, tampouco consegue utilizar com propriedade os símbolos
gráficos da expressão escrita. Em geral,
o disléxico, caso não for severamente disgráfico (letra ilegível), consegue
copiar, porém quando escreve um ditado e na escrita espontânea (dissertação)
revela sérias complicações. Na maioria
dos casos apresenta disortografia. Além, disso tem dificuldades para expressar
idéias com base sintaxe, seqüência e estrutura adequadas. Quando escreve,
revela sinais de confusões, inversões, adições, omissões e substituições.
Dificuldades em matemática: O disléxico pode
ser capaz de automatizar os aspectos operatórios, porém apresenta dificuldades
para aplicá-los na solução de problemas reais. Às vezes essa dificuldade provém
do fato de ele não poder entender a formulação do problema, já que lhe é
difícil ler. Nos disléxicos graves, falham também os aspectos operatórios,
pois, eles invertem os números ou então sua seqüência.
Outras pesquisas revelam ainda que, pode
ocorrer dificuldade de aprendizagem independente da dislexia. A escrita de trás
para frente e as inversões de letras e palavras são comuns nos “estágios
iniciais” do desenvolvimento da leitura entre as crianças.
Outra revelação importante é que pelo fato da
dislexia refletir num transtorno lingüístico, não há evidências de que o treino
dos olhos possa diminuir o distúrbio. Tendo os disléxicos problemas na
“nomeação” de letras “não na cópia” destas, implica que mesmo que ele aprenda a
ler o fará de maneira lenta, o que se
leva a concluir que a dislexia não é superada.
Para Orton, 1937
(apud. Drouet, 1990, p. 139), a dislexia seria explicada por uma inadequada
instalação de dominância lateral (lateralidade). Drouet (1997) Explica que Orton se inspirou nos trabalhos de Broca que
descreveu o centro de articulação da palavra em 1865. BROCA admite que o
predomínio funcional de um lado do corpo se deve não à educação, mas sim à
supremacia de um hemisfério cerebral sobre o outro. A escrita em espelho, o
retardo da linguagem e a gagueira são também explicáveis, conforme Orton, por
esse conflito de dominância dos hemisférios cerebrais por muitos autores.
CONCLUSÃO
Ser
disléxico é condição humana e cada um tem o seu jeito de ser e de
aprender. A Dislexia é um distúrbio real que interfere no processo de
aprendizagem de leitura, por provocar na
criança dificuldades específicas na
aprendizagem da identificação dos símbolos gráficos; acarretando insucesso em outras áreas que
dependem da leitura e da escrita. Contudo, há um desconhecimento quase que
generalizado acerca desse assunto. Considerando que a dislexia ainda não é
reconhecida e muitas vezes não é aceita por professores, pelos pais, enfim pela
sociedade, sendo ignorada em casos de
retenção de alunos ou evasão escolar em nosso país, não se deve associá-la à desatenção,
desmotivação, condição socioeconômica, baixa inteligência ou má alfabetização.
Isso revela atitudes preconceituosas dentro da sala de aula, o que tem
desmotivado ainda mais o aluno que não consegue ler, escrever e não tem boa
ortografia para idade. Na verdade, a dislexia tem sido vista, pelos
pesquisadores como circunstância hereditária devido a alterações genéticas,
sendo caracterizada por apresentar alterações no padrão
neurológico do indivíduo. Tornando-se
essencialmente necessário que o educador reconheça na criança características
dos chamados distúrbios de aprendizagem, assumindo desafios de criar
metodologias eficientes, no sentido de acolher cada uma delas, respeitando e
entendendo sua individualidade; sendo necessário que se investigue, compreenda e se discuta como esta
criança pode aprender adequadamente. Portanto, o diagnóstico e o tratamento
cabem a uma equipe multidisciplinar
quanto mais cedo melhor,
diminuindo assim o sentimento de incapacidade, de baixa auto-estima entre
outros. Tornando-o assim um sujeito
independente e auto-suficiente.
REFERÊNCIAS
CONDENARIN,
M.; BLOMQUIST, M.; Dislexia:
manual de leitura corretiva. 3ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas,
1989.
DROUET, Ruth Caribe da Rocha. Distúrbios de
aprendizagem, 3ª ed. São Paulo: Ática, 1990.
JOHNSON,
D.J. & MYKLEBUST, H.R. Distúrbios de aprendizagem. 2ª ed. São
Paulo: Pioneira, 1987.
JOSÉ, E. A. & COELHO, M. T. Problemas
de aprendizagem. São Paulo: Ática, 1993.