Revista: Quais os avanços no método de alfabetização que a escola tem implementado nos últimos anos?
Emília: De um modo geral tivemos muito pouco avanços, veja: a escola é uma das instituições mais conservadoras que existem em uma sociedade. As mudanças no sistema escolar são lentíssimas. Em alguns textos disse que o único avanço que tivemos nas últimas décadas foi o desaparecimento do castigo corporal. Dá-me a impressão de que nisso se tem avançado (não quero dizer que não haja agressão, existem sim, porém de maneira mais sutis).
As maneiras pelas quais se ensina hoje a escrita não são muito diferentes da formação dos escribas na Mesopotâmia clássica. Quando a conservação dos documentos dependia das cópias, não havia outra maneira de reprodução, se necessitava, então, formar técnicos copistas. Isso segue tal qual era no passado, as escolas seguem assim como se não houvera transformações, como se a imprensa ou a fotocópia não tivessem sido inventadas, e embora a matéria “caligrafia” praticamente esteja ausentes nos programas, a ideia que subsiste por de trás da caligrafia ainda está vigente.
Revista Como hoje alfabetização pode ser definida? Há diferenças do que ela significou no passado em relação ao que significa agora, após tantos estudos, inclusive o seu?
Emília A definição de “pessoa alfabetizado” é sempre relativa a um lugar histórico e a um tempo histórico. Não se trata apenas de conhecer o alfabeto, senão de ser capaz de se mover dentro da rede social que define a “cultura escrita” de alguma sociedade em algum momento de seu desenvolvimento histórico. Isto é importante porque agora estamos a testemunhar uma mudança de técnica, de extrema importância, dos recursos disponíveis para a produção e circulação de textos: a informática. Ela permite-nos ler, de nossos escritórios, os textos que estão “materialmente” a milhares de quilômetros de distância em bibliotecas remotas. O teclado – já presente nas antigas máquinas de escrever - tornou-se uma ferramenta diária para encontrar informação, preencher um requerimento, escrever para os amigos, pagar impostos, e uma longa lista de funções difíceis de imaginar até anos recentes. Portanto, os requisitos para realmente considerar uma pessoa como alfabetizada aumentaram com a presença de novas tecnologias, as quais “vieram para ficar”.
Revista Há muitas definições de alfabetização?
Emília Sim. Há tantas definições como há tempos e momentos históricos. Os requisitos para se considerar uma pessoa alfabetizada muda-se como o tempo. Em tempos passados, podia apenas saber assinar o nome e seguir instruções simples, hoje em isso é impensável. É a partir da tecnologia e da informação que os requisitos da alfabetização têm subido exponencialmente.
Revista O que é a aprendizagem, como se aprende, como ensinar?
Emília Eu acho que as escolas não entraram ainda à cultura escrita, ainda que ensine as “primeiras letras”, por paradoxal que possa parecer. É terrível admitir que a escola ainda funcione como se os livros e as bibliotecas não existissem, numa época em já estamos colocando em questão a nossa própria ideia do livro e da biblioteca, pelo fato da internet.
No México, temos visto uma maneira muito dramática. Na época em que as bibliotecas de sala de aula foram formadas, o famoso projeto dos Libros de Rincon , a chegada das caixas e mais caixas de livros, necessariamente, não despertou a curiosidade de professores para abrir e ver o que estava dentro, mas sim o medo: “O que vamos fazer com tudo isso?”. Eu diria que o professor não está preparado para trabalhar com livros, no plural, está qualificado para trabalhar com um livro, no singular. Isso é o mesmo que domesticar o seu caminho das crianças, dizendo: “da página 5 a 15”, não se ler o que precede ou que se segue. “Copie isso e leia aquilo”. A pluralidade dos livros é visto como um perigo. Se você descobrir que a pluralidade de livros é considerada preocupante e perigosa, e não como uma oportunidade sensacional, descobre-se também que os livros não entram no processo de formação de professores.
Revista Por que para a Sra. a alfabetização apenas com a lousa é sempre deficiente?
Emília Por definição, qualquer coisa que está escrito neste espaço, que é um espaço enclausurado, fechado, está fora de qualquer funcionalidade, pouco importa que o professor escreva palavras soltas, ou orações completas, o que escrever ali é parte de um contexto mais amplo. A lousa é o lugar para colocar algo que você quer se concentrar. Eu não sou contra o quadro-negro como um objeto. Digo, este é o lugar onde só há escrita, onde a atenção se fixa sobre a escrita, há, por definição, uma escrita que se destina descontextualizada, porque a lousa é o lugar para gerar um contexto neutro, um “sem contexto”.
Os espaços que a cultura não escolar gerou para a escrita circular, a utilização de outros espaços que não aquele da escrita dentro das escolas, geraram muitos medos, porque aparentemente uma fronteira foi atravessada. Quantos anos nós temos falado que a escola deve ser aberta à realidade? Isso não acontece, as fronteiras entre o que é intrínseca e inerente à escola e que está fora são ainda muito marcadas.
Devemos dar espaço para livros que não são didáticos, mas livros que podem ser utilizados didaticamente (porém que não se chamam livros didáticos). Se entrar um livro e esse livro poder ser controlado pelo professor, a coisa funciona, mas quando chegam muitos livros começa o problema. A necessidade de os professores ampliarem seus horizontes culturais, literários, etc... ou até mesmo perder o medo daquilo que não conhecem é fundamental para a inserção da escola na sociedade.
Eu vou contar uma história. Em uma escola rural, um instrutor da comunidade organizou o serviço de empréstimo de livros. Tudo funcionou bem, até que de repente nós observamos que ele emprestava muito poucos livros, e que emprestava às crianças mais velhas os livros que na realidade eram para as crianças menores. Logo descobrimos que ele apenas emprestava os livros que ele havia lido, pois ele sentia que era errado emprestar um livro para ser lido se ele não havia lido-o, “e se o garoto perguntasse coisa, como responder?” pensava ele. Como a sua leitura não era foi muito boa e tinha muitas coisas para fazer, ele lia os livros que tinham muitas ilustrações e pouco texto, ou livros destinados às crianças menores.
Isso me ensinou muito, porque era seu papel como um professor que estava em causa. Se um professor pensa: “Eu tenho que saber o conteúdo deste antes de qualquer um dos meus alunos”, com efeito, a chegada de uma biblioteca é um perigo, pois tem a ver com uma análise da própria função do professor e sua relação com os livros, com os alunos e com tudo mais.
Revista Em alguns textos e palestras, a Sra. tem insistido no fato de que a repetência está sempre ligada a forma pela qual as crianças aprender a ler e a escrever, por quê?
Emília Eu penso que a repetição expressa muito mais a incapacidade do sistema escolar para dar conta de aprendizagens diferenciadas, que a incapacidade do indivíduo para aprender. Em todos os casos, eu sei, nunca poderia dizer que a criança não aprendeu nada. Normalmente não é este o pensamento, pois no próximo ano, ela é tratada como se não tivesse aprendido nada no ano anterior. A criança aprende algo, mesmo que não aprenda o suficiente. O problema é que a escola não tem como verificar o que a criança aprendeu e retorna ao “zero”; no ano seguinte, parte deste ponto, ignorando completamente o ano anterior. Isto parece expressar muito a incapacidade do sistema para reagir a tais situações, insistem que é a incapacidade da criança em aprender.
A repetição não é psicológica e pedagogicamente justificável. Pode ser justificável institucionalmente: Se não se sabe onde colocar a criança, ou a deixa de fora do sistema ou a devolve para o mesmo sistema, assim que a coisa é gerada.
Se eu tiver em mente também que na América Latina a maioria da população começa a escola primária sem ter recebido uma atenção pré-escola, então minha primeira reação é dizer: “Atenção com este momento inicial que damos às crianças”, sem esta atenção, cai-se fácil na tentação de rotular as crianças, entre espertas, e burras. Acontecer que custa muito mais trabalho “desrotular” e recuperar sua capacidade de aprender, que lhes dar um pouco mais de atenção neste início. Por isso eu digo que sejamos mais tolerantes com esse momento inicial da criança, por favor, não ponham rótulos “burro”, porque depois é muito difícil de remover. Se nos comportarmos diante da aquisição da linguagem oral, como fazemos com a escrita acadêmica, as clínicas estaria cheia de crianças com dislalia.
A coleção Libros del Rincón a qual Emilia faz referência foi um programa do Governo Mexicano que tinha como objetivo destinar às comunidades escolares livros dos mais variados gênero com vistas a estimular a formação de leitores desde a escola básica.
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