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O
Romantismo no Livro Didático do Ensino Médio Com
o objetivo de verificar como é abordado o movimento literário denominado
Romantismo no livro didático de ensino médio, analisamos dois livros que são
utilizados atualmente na rede estadual de ensino da Paraíba. Esses livros,
doravante denominados de LIVRO 1 e de LIVRO 2,
respectivamente, são os seguintes: LIVRO 1:
Português:
língua e literatura – Volume único, de Abaurre, Pontara e Fadel.
No
livro 1, o Romantismo é abordado de forma resumida,
priorizando as poucas informações biográficas sobre escritores românticos. A
contextualização também é pouco explorada e o estudo das obras se prende à
identificação de algumas características do estilo romântico. Inicialmente
unidade 1, é apresentado um texto de Karen Dauch no qual se faz uma comparação entre o amor
romântico idealizado e o amor moderno não idealizado. Nesse caso, caberá ao
professor observar que há necessidade de se abordar as características
modernas para que os alunos possam fazer a referida comparação, tendo em
vista que o livro não traz subsídios suficientes. Em
seguida, o livro 1 expõe as características da
linguagem romântica como; transbordamento de expressão; poemas extensos;
recursos que revelam o estado emotivo do artista (reticências, antíteses,
hipérboles, metáforas) e repetições inúteis. Consideramos a expressão
“repetições inúteis” como um juízo de valor dos autores e, portanto, poderia
ser evitada, ou então, deveria ser devidamente justificada mostrando de forma
objetiva, dentro das obras, a existência de tais repetições. No
livro 1, é apresentado o Romantismo no Brasil e em
Portugal. Com relação ao Brasil, ele demarca o inicio do movimento em 1836,
com “Suspiros poéticos e saudades” de Gonçalves Dias, indo até 1881, com
“Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis que inicia o Realismo.
Quanto ao Romantismo. Faz uma crítica importante ao dizer que houve o desvio
da atenção à escravatura em prol do índio, colocando como exceção o poeta
Castro Alves, também elogia Sousândrade por apresentar em suas obras algumas
características modernas. Sobre
o Romantismo em Portugal, o livro 1 divide a poesia
em três momentos, mas apenas cita algumas obras e autores. Os exercícios se
limitam à datas e aos autores das obras. São
meramente didáticas. Nas
unidades seguintes, o livro 1 retoma o Romantismo
brasileiro apresentando as três gerações poéticas e a prosa romântica. Na 1ª
geração destaca Gonçalves Dias trazendo seu poema “Como eu te amo” e fazendo
uma intertextualidade com “Declaração de Amor” de Carlos Drummond de Andrade.
Apresenta ainda outras obras e datas de Gonçalves Dias e exercícios com
questões superficiais sobre fragmentos de “I – Juca Pirama”. Sobre
a 2ª Geração, faz uma intertextualidade entre “Adeus meus sonhos” de Álvares
de Azevedo e “Ad infinitum” (até o infinito) de
Jorge Trindade. São apresentadas biografias resumidas de Álvares de Azevedo, Cassimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire, e
exercícios visando detectar características românticas nas poesias. Faz ainda
uma pequena referência a Lord
Byron. Na
3ª geração, apresenta a intertextualidade entre “O adeus de Teresa” de Castro
Laves e “Teresa” de Manuel Bandeira, e traz um exercício sobre a
desconstrução do lirismo de Castro Alves por Manoel Bandeira. Cita trechos de
“Navio Negreiro” e um exercício sobre o mesmo, diferindo do exercício sobre
Sousândrade cujas questões visam também a forma do
poema. A
abordagem da prosa romântica no livro 1 é iniciada
com um trecho de “A moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo, e um exercício
básico sobre o mesmo. São apresentados resumidamente os sertanistas Bernardo
Guimarães, Franklin Távora Taunay. Em seguida, faz a intertextualidade entre
“O Guarani” (de José de Alencar) e o filme “O último dos Moicanos” (de James Flooper). Destaca a importância de José de Alencar como
escritor de vários tipos de romances: indianistas, histórico, urbano e
regionalista. Apresenta um trecho de “Senhora”, deste mesmo autor. Nesse
livro 1, destacamos três pontos: 1) Os exercícios pouco contribuem para o
gosto literário do aluno. Excetuamos dentre os exercícios, uma produção
textual sobre a questão da discriminação das mulheres solicitada após abordar
um trecho de “Senhora” (de José de Alencar), promovendo nesse caso uma
releitura e atualização da obra. 2) Consideramos interessante
as intertextualidades feitas entre obras românticas e obras atuais,
mas apontamos a necessidade do professor ir além do livro didático para que
possa fazer essa ponte romantismo-modernismo de forma mais concreta para o
entendimento do aluno. 3) Outra observação é quanto a estrutura deste livro didático em que os conteúdos de
gramática, lingüística e literatura vêm intercalados em todas as unidades.
Este fato provoca, ao nosso ver, cortes bruscos
quanto aos conteúdos literários. Citamos, como
exemplos: a) Após abordar uma intertextualidade
entre a “Canção do Exílio” (de Gonçalves Dias) e a “Canção do Exílio
facilitada” (de José Paulo Paes), segue-se a seção DE TEXTOS que traz um
texto jornalístico da Folha de São Paulo abordando o desenvolvimento
regional. Ao invés de aprofundar a questão da intertextualidade, a discussão
passa para o nível sócio-político e geográfico, ou seja, muda-se de inter-textualidade para inter-disciplinaridade,
desvalorizando o debate literário das obras. b) Em outra seção de EXAME DE TEXTOS é
apresentado um gráfico e exercícios sobre “drogas”, após ter sido abordada a
comparação entre “Adeus meus sonhos” de Álvares de Azevedo, e “Ad infinitum” de Jorge Trindade. Novamente prioriza-se o
debate social em detrimento do debate literário, que poderiam ser feitos
concomitantemente de forma a incentivar o aluno no gosto literário das obras. No
livro 2 observamos inicialmente, a separação dos
conteúdos de literatura dos conteúdos de gramática e lingüística, isso
influenciou, acreditamos, numa melhor abordagem do Romantismo em relação ao
livro 1, anteriormente citada. A
contextualização do livro 2 é bem ampla, procurando
situar devidamente o aluno quanto à situação sócio-político e histórico em
que se deu o Romantismo. Deixa claro também outras artes. Daí a apresentação,
nesse livro, de vários quadros pintados na época, fazendo-se uma ponte entre
arte e literatura, mais precisamente literatura e pintura. São mostrados
quadros como “Veneza”, óleo sobre tela de William Turner de 1843, seguidos
sempre de comentários no roda-pé sobre os traços românticos neles contidos. Devido
ao subjetivismo romântico, há uma preocupação em situar o artista romântico
em seu tempo, apresentando os conflitos materiais e espirituais que ele
vivenciava: “... isso nos permitirá entender os motivos da criação de um novo
padrão estético e evitar classificar os românticos como individualistas e
melodramáticos”. A
primeira contextualização, no livro 2, é feita o
nível mundial visando caracterizar o Romantismo como um estilo de época que
foi cultuado por diversos artistas e em várias partes do mundo. Nesse momento
são apresentadas as características definidoras do movimento romântico como o
subjetivismo, o nacionalismo, a fuga da realidade, e outras. Em seguida, traz
o poema “O Conde Lopo”, de Álvares de Azevedo,
acompanhado de um exercício explorando os traços românticos do mesmo. Há
uma segunda contextualização abordando a situação sócio-política da época em
Portugal. Partindo daí é apresentado, de maneira mais abrangente que no livro
1, o Romantismo português, passando por obras e
autores de destaque como Almeida Garret, Alexandre Herculano e Camilo Castelo
Branco. Além
de históricos sobre os autores, são apresentados previas e trechos de suas
obras mais importantes como: “Não te amo”, “Este inferno de amor” e “Gozo e
dor” de Almeida Garret; trecho de “Eurico, o presbítero” de Camilo Castelo
Branco; e “As pupilas do senhor reitor” de Júlio Dinis. Todas elas são
exploradas literariamente através de exercícios com questões do tipo: “Embora escrito por um autor
ultra-romântico, esse trecho evidencia um caráter fortemente irônico com
relação a aspectos da estética romântica. Em que consiste tal ironia?” (op. cit., p.
53). Uma outra contextualização inicia o capítulo do livro 2,
agora abordando o Brasil do século XIX. Em seguida, temos a abordagem do
Romantismo no Brasil e, da mesma forma abrangente e procurando valorizar os
aspectos literários, são apresentados os nossos autores românticos, seus
históricos e suas obras, ao contrário do livro 1 em
que na maioria eram apenas citadas. São apresentados poemas
e trechos de obras como: “Canção do Exílio”, “Canção do Tamoio” e “I - Juca Piramá” de Gonçalves Dias; “Meus oito anos” de Cassimiro de Abreu”, “Noite na Taverna” e “Meu
Anjo” de Álvares de Azevedo; “Marieta”, “Navio Negreiro”, “América” e “Vozes
d’África” de Castro Alves; “Iracema”, “O Guarani”, “Senhora” e “Diva” de José
de Alencar; e “Memórias de um sargento de milícias” de Manoel Antonio de
Almeida. Essas obras são comentadas em seus principais aspectos e são
aplicados exercícios sobre as mesmas. O
livro 2 fala também, de forma breve, sobre o teatro
romântico destacando Martins Pena e Cita algumas de suas obras. Cita também o
regionalismo romântico, dando destaque para Visconde de Taunay, autor de
“Inocência”, Franklin Távera que escreveu “O
cabeleira” e “Um casamento arrebalde” e Bernardo Guimarães,
autor de “O Seminarista” e “A escrava Isaura”. Nesse
livro 2, notamos uma preocupação maior com o
“literário” seu contudo deixar de fazer-se a relação entre literatura,
história e sociedade. A
partir da análise dos referidos, levantamos dois questionamentos que
acreditamos serem importantes para o direcionamento do ensino de literatura
no nível médio. São eles: 1. Os dois livros analisados ao
abordarem a 2ª geração romântica, fazem referência à “Lord
Byron”, mas assim como em outros livros didáticos que conhecemos, não
apresentam sequer uma frase dessa escritor tão
influente no Romantismo. 2. Os atuais livros didáticos de ensino
médio estão vindo, na maioria, em volume único. Há
economia de dinheiro, anos também há uma redução ou uma abordagem mais resumida
dos conteúdos, especialmente de literatura, como observamos na análise do
livro 1 que, além de sintetizar o assunto, fez
intercalações incoerentes, ao nosso ver, dos conteúdos de literatura como os
conteúdos de gramática e lingüística. Concluímos,
afirmando que quanto ao ensino de literatura o professor precisa e deve ir
além do que está no livro didático necessitando, portanto, de estar bem
preparado profissionalmente para avaliar o livro que irá utilizar e
utilizá-lo adequadamente procurando cultivar o gosto literário por parte dos
seus alunos. BIBLIOGRAFIA: ABAURRE, Maria Luiza, PONTARA,
Marcela Nogueira e FADEL, Tatiana. Português língua e literatura. Vol.
Único. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 2003 (pp. 46-71). MAIA, João Domingues. Português – Série novo ensino médio. Vol. Único. 9ª ed. São Paulo: Ática, 2001. |